Por Luiz Octávio Bandeira e Marcelo d’Alvarenga
À medida que stablecoins, outros ativos virtuais e as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) ganham espaço no mercado financeiro, cresce também a preocupação com seus impactos sobre o sistema tradicional de crédito. O avanço dessas inovações pode gerar um processo de desintermediação financeira, reduzindo o papel dos bancos na captação de depósitos e, consequentemente, na concessão de empréstimos.
Hoje, o sistema monetário funciona em modelo dual: pessoas se relacionam com bancos, e bancos se relacionam com o Banco Central. Essa estrutura garante que os depósitos tenham valor equivalente, que haja criação de moeda por meio do crédito (via sistema de reservas fracionárias) e que exista supervisão para preservar a estabilidade e a confiança na moeda.
O problema surge quando depósitos bancários passam a competir com stablecoins. Se famílias e empresas preferirem manter recursos em ativos digitais, os bancos podem perder uma de suas principais fontes de captação — os depósitos. Isso reduz a base para concessão de crédito ou encarece o custo do dinheiro, levando a juros mais altos e menor oferta de financiamentos. O resultado pode ser desaceleração econômica, com impacto sobre investimentos, consumo e emprego.
Diferentemente dos bancos, emissores de stablecoins — como previsto na legislação norte-americana — são obrigados a manter reservas integrais e não podem operar com multiplicação de crédito. Funcionam, na prática, como “cofres digitais”, sem capacidade de criar moeda por meio de empréstimos.
Diante desse cenário, especialistas defendem a integração das inovações tecnológicas ao modelo atual, evitando uma ruptura que comprometa a oferta de crédito. Uma alternativa debatida é a emissão de depósitos bancários tokenizados pelos próprios bancos, combinando a eficiência e programabilidade das stablecoins com a capacidade tradicional de concessão de crédito.
O desafio regulatório está justamente em equilibrar inovação, estabilidade financeira e crescimento econômico, garantindo que a digitalização das finanças não comprometa a função essencial do sistema bancário: financiar o desenvolvimento.